Moy Kat Ming

Certa vez, diante de um momento precioso, fiquei sem palavras. Nesta ocasião, meu Si Fu,  mestre Julio Camacho me aconselhou a encontrá-las e me expressar ao mundo. Ao falar de Carmen Maris, todas as palavras são poucas e imprecisas para representar a grandeza dessa irmã.

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Carmen Maris com Grão-Mestre Leo Imamura, em janeiro de 2019.

Desde a sua chegada ao Clã Moy Jo Lei Ou, é impressionante ver o quanto Carmen se destacou e se tornou uma pessoa fundamental para a nossa família. Não há ninguém que não tenha admiração por ela. É uma mulher que possui uma dedicação e um amor ao Ving Tsun que me comove profundamente. Carmen passa verdade em tudo que se propõe a fazer.

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Fernando Xavier apresentando Carmen Maris ao Si Fu, Cerimônia de Admissão ao Clã Moy Jo Lei Ou, em novembro de 2018.

Eu sempre brinco que, ao chegar nos lugares, ela parece o Sol adentrando o recinto. Sem dúvidas, Carmen  é brilhante em tudo em que se propõe a fazer, tal como o seu nome Kung Fu evidencia: Moy Kat Ming (梅吉明). Uma das suas características marcantes é estar atenta às situações, demonstrando um grande zelo ao Si Fu, Si Mo e seus irmãos Kung Fu.

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Cerimônia de Discipulado (Baai Si) de Carmen Maris, em março de 2019.

Mais do que a minha irmã mais nova dentro da família Kung Fu, Carmen é minha irmã de vida. Talvez eu  não tenha tido a chance de expressar a sua real importância para mim, contudo, aproveito esse solstício para dedicar essas palavras. Sempre estamos em contato e é uma felicidade enorme cada momento que conversamos, rimos ou praticamos juntas.

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Eu e Carmen.

Carmen, há um caminho lindo e auspicioso que você já está trilhando no Kung Fu. Desejo que eu possa estar perto para ver o desenvolvimento da sua jornada.

Sigamos!

 

 

Encontros a Distância

Excepcionalmente, hoje não teve o Encontro Temático a Distância, um dos instrumentos estratégicos do Clã Moy Jo Lei Ou. Isso gerou uma condição favorável para refletir e expressar um pouco sobre esses instantes que se tornaram parte do meu cotidiano, positivamente. Para mim, esses encontros semanais são momentos em que tenho a oportunidade de estar mais em contato com meu Si Fu, mestre Julio Camacho e aprender bastante sobre temas variados, sob a perspectiva Kung Fu.

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Registro de um dos Encontros Temáticos a Distância, realizado em agosto de 2019

Nos dias atuais, manter contato com outras pessoas a distância é, de certo modo, facilitado pelas tecnologias disponíveis. O mundo está interligado pelas mídias sociais e mensageiros instantâneos. Mas, às vezes me questiono se essa facilidade nos conecta, de fato, como seres humanos ou nos afastou por completo. Neste sentido, percebo neste instrumento um potencial de desenvolvimento humano riquíssimo ao se aproveitar das circunstâncias para trocarmos ideias e termos uma proximidade com nosso mestre.

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Reunião a distância com Si Fu e discípulos no núcleo Barra, em maio de 2019

Em diversas ocasiões, Si Fu comentou sobre sua experiência de manter a conexão com o seu mestre, apesar da distância (Rio de Janeiro/São Paulo).  Futuramente, seremos nós, discípulos de mestre Julio Camacho que construiremos a experiência de termos um Si Fu em outro lugar. Isso não quer dizer que não estaremos conectados; ao contrário, os Encontros Temáticos a Distância serão uma ferramenta crucial para nos mantermos alinhados com o nosso mestre.

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Si Fu conduzindo um encontro a distância com Si Gung, Grão-Mestre Leo Imamura, em razão do aniversário do Patriarca Moy Yat – 28 de junho de 2018

Há um provérbio chinês que diz: “A mente tem o passo ligeiro, mas o coração vai mais longe”. Quando há conexão, o coração chega em qualquer distância. Sigamos!

Escrever sobre memórias é um exercício orgânico para não esquecer. Assim como fazer caminhada, pedalar ou malhar para que o corpo não sucumba.

Muitas vezes, somos tomados pelos pensamentos e estes, não tendo mais “espaço” na cabeça, precisam ser postos para fora. Eu faço isso através da escrita.

Ultimamente, minha “caixa” anda lotada, mas por alguma razão, há uma trava entre a caixa e a caneta.

Bem, venho refletindo muito sobre minha vida e nos rumos que ela está tomando (ou deixando de tomar). Tenho vontade de desistir de muitas coisas. É um sentimento temporário; no entanto, tornou-se mais presente nos últimos dias.

Não quero ficar me justificando, até porque justificativas só explicam algo, mas não apontam solução alguma.

Todas essas palavras que escrevi não tem nada a ver com Kung Fu, certo?

Aos olhos do leigo, escrever sobre marcialidade é se referir a golpes, socos e chutes. Será que é somente sobre isso? E nossas lutas internas? Nossas constantes, silenciosas e angustiantes guerras travadas no nosso íntimo.

Costumava me perguntar o porquê das pessoas, na atualidade, buscarem alguma arte marcial para praticarem. Boa parte vive a ilusão de quebrar tábuas com um só golpe ou levitar como num filme do Ang Lee. Outras simplesmente pensam no corporal ou pra dar “porrada” em alguém.

Ultimamente, eu volto essa pergunta para mim: por que ainda prático arte marcial? E sinceramente, não tenho uma resposta definida neste momento. Como disse, minha mente anda lotada de pensamentos, alguns desses questionando antigas e novas proposições.

Uma das poucas certezas que tenho vem de um conselho que meu mestre Julio Camacho me oferece (e me lembra com uma certa frequência nos últimos tempos): mais do que nunca, preciso escrever.

Escutar com o coração

“Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciando curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular. Escutar é complicado e sutil…”

Rubem Alves

Não sei se para outros praticantes acontece da mesma forma, mas eu às vezes tenho a impressão de que meu Si Fu se comunica comigo através de silêncios. Creio que isso seja, de longe, algo extraordinário, pois demonstra uma sintonia entre mestre e discípulo. Isso não é obra nem do acaso e nem do oculto. É Kung Fu.

Mesmo trabalhando com sala de aula o dia todo, eu particularmente prefiro ouvir mais do que falar e isso se reflete na minha relação com meu Si Fu. Raramente nos falamos por telefone ou mensageiro. Mas, quando aparece a oportunidade, nossas conversas são profundas e enriquecedoras.

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Si Fu, Mestre Julio Camacho,  contando algumas histórias sobre o Patriarca Moy Yat

Chegam a serem engraçadas determinadas situações. Muitas vezes, faço mentalmente algumas reflexões sobre assuntos diversos e quando encontro Si Fu, ele externa exatamente o que eu estava pensando. Eu cá com meus botões: “puxa vida, Si Fu pensou a mesma coisa!”

Certa vez, meu mestre comentou acerca das três guerras travadas pelo ser humano, segundo a lógica chinesa. Uma delas é a guerra da língua. Saber falar , como e quando são habilidades também a serem desenvolvidas e o Ving Tsun nos auxilia neste sentido. Na atualidade, onde as palavras são interpretadas, muitas das vezes, no pior sentido possível, ter o discernimento para usá-las (ou não usá-las) é crucial.

 

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Início meu processo discipular, em 2018.

Claro que neste processo de Vida-Kung Fu há falhas na comunicação, certamente de minha parte. Por vezes, por não estar atenta à alguma situação, perco a conexão e deixo de compreender algo que é importante. Em outras épocas, isso me consumiria o espírito, pois tenho a tendência de me cobrar de forma negativa. Mas, lidar com as frustrações também faz parte do desenvolvimento humano.

Há uma frase do Si Taai Gung, Patriarca Moy Yat em que diz: “O órgão que a gente deve usar para ouvir é o coração”. Isso traduz bem o sentido de Vida-Kung Fu, que requer comunicação, mas não necessariamente através de palavras, para que se propicie o aprendizado. A experiência trouxe ao meu Si Fu a arte da “escutatória” (como diria Rubem Alves) e com certeza é através do coração.

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Esse registro foi tirado em maio de 2019 e essa conversa irá ressoar para daqui a há alguns anos

Eu sou muito grata ao meu Si Fu por estar sempre disposto a me ouvir, mesmo que eu não diga nada. Só no olhar, ele já diz tudo.

Escute com o coração e sigamos!

Reciprocidade

Muito antes de ingressar à Família Kung Fu, eu já ouvia as histórias sobre a primeira mulher titulada mestre de Ving Tsun reconhecida pela International Moy Yat Ving Tsun Federation. Mestra Úrsula Lima (Moy Lin Mah) é uma das pessoas que eu mais admiro na vida. Talvez ela nem saiba do tamanho desse meu apreço (até o momento). Pessoalmente, a conheci por intermédio do meu amado Fernando Xavier, quando estive na reunião fundamental do que viria a ser o núcleo Freguesia, sede da Família Moy Fei Lap, do Mestre Felipe Soares. Ali e em outros momentos, só foi confirmando o que eu sempre achei: ela é uma mulher admirável!

Meu Si Fu, Mestre Julio Camacho, sempre comenta a respeito de minha Si Suk (termo em chinês que representa tio/tia mais novo) e do quanto ela está presente nos momentos mais marcantes da sua trajetória no Ving Tsun. Foi na casa de Si Suk Úrsula, também prima de meu Si Fu, que ele começou a dar aulas do nosso Sistema. Como ele mesmo diz: “pequenas ações geram desdobramentos”. Esse momento inicial se desdobrou e hoje os dois são história do Ving Tsun, do Rio de Janeiro para o mundo.

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Meu Si Fu. mestre Julio Camacho e meus Si Suk Úrsula Lima e Ricardo Queiroz em agosto de 1995

Uma das memórias que meu Si Fu também conta, principalmente quando explica sobre a lógica dos nomes-Kung Fu aos discípulos, é da escolha do nome da Si Suk Úrsula – Moy Lin Mah – feita pelo próprio Patriarca Moy Yat,  por ocasião em que ela se tornava discípula de Grão Mestre Leo Imamura.  Lin quer dizer “flor de lótus” e Mah “cavalo”. De fato, Si Suk Úrsula traz consigo tais naturezas, de forma equilibrada, sendo um exemplo da força no feminino.

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Momento afetuoso entre o Patriarca Moy Yat e Si Suk Úrsula Lima

No último sábado, dia 27 de julho, a Família Moy Lin Mah celebrou seus nove anos, através da XXI Cerimônia Tradicional, com a admissão de novos membros à família e acesso a níveis do Sistema, além de um jantar festivo em Copacabana. Eu tive a alegria de estar presente ao evento, junto com meus irmãos-Kung Fu Fernando Xavier, Thiago Pereira e Carmen Maris, além da presença de meu Si Fu e minha Si Mo, Márcia Moura, Si Suk Ricardo Queiroz e  sua esposa, Sra. Flavia Brambilla, e representantes de outras lideranças do Rio de Janeiro. Foi, sem dúvida, um evento leve, alegre e emocionante para todos os presentes. É perceptível o zelo e a integração dos membros da Família Moy Lin Mah para sua Si Fu e para seu esposo, Sr. Ricardo Lopes.

Ao final do jantar comemorativo, Si Suk Úrsula agradeceu a presença de todos, inclusive os representantes do Clã Moy Jo Lei Ou. Falou da sua vontade de retribuir todo suporte que ela teve ao longo de sua jornada, como forma de agradecimento.

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Cerimônia de comemoração dos nove anos da Família Moy Lin Mah

Eu fico muito feliz por ela está presente também nos meus momentos mais importantes dentro do Ving Tsun, como nas cerimônias de minha admissão à Família Moy Jo Lei Ou e ao meu discipulado. A cada encontro nosso, seja em festividades ou até mesmo em situações do cotidiano, Si Suk Úrsula sempre dedica palavras muito carinhosas para mim e sou grata por esse afeto.

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Eu e Si Suk Úrsula Lima. Muita feliz por esse registro tão esperado!

Reciprocidade é a palavra mais adequada para representar a relação entre as famílias Moy Jo Lei Ou e Moy Lin Mah. Desejo que esse sentimento de reciprocidade seja perene e que sigamos juntos!

Tomada de Decisão

A vida é um conjunto complexo de sucessivas decisões. Cada uma dessas decisões, sejam ações ou omissões, trazem consequências e responsabilidades. O que aflige boa parte das pessoas, inclusive a mim, é de que forma decidir, como saber qual é o “certo” a se fazer.

Eu sempre ouço do meu Si Fu, mestre Julio Camacho, a ideia de situações adequadas, ao invés de “certo” e “errado”. Dependendo das circunstâncias, o que é considerado “correto” pela generalidade não é o adequado para aquela ocasião.

Eu e meu Si Fu, durante Seminário de Alinhamento Prático realizado neste ano

Nós, praticantes de Ving Tsun, estamos diante de inúmeras decisões durante a prática marcial e cada movimento impensado gera uma conseqüência. Claro que no Mo Gun (espaço de luta), o combate é simbólico; contudo, na realidade, um deslize separa a vida da morte.

Essas reflexões sobre tomada de decisões estão sempre presentes para mim, sobretudo no momento atual de prática. Enquanto faço o Chi Sau (“mãos aderidas”), estou diante de infinitas possibilidades para acessar o espaço do outro, o que requer observação, humanidade e uma resolução. Antecipar ou retardar um movimento, por mais insignificante que se pense, pode ser “fatal”.

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Si Fu demonstrando alguns aspectos do Chi Sau

Isso me faz lembrar de uma conversa que tive com meu Si Fu. Ele me contou sobre a origem da palavra fácil, que vem do latim e significa fazer. Então, disse ele, por conclusão, a ideia de difícil é algo que não dá para ser feito. Você só sabe se algo é fácil ou difícil se você realmente faz. Um julgamento a priori não te dá condições de análise.

Para mim, tomar decisões é ainda um processo difícil, mas se eu sei disso é porque eu faço decisões. A partir das minha falhas, eu aprimoro minha prática e, por sequência, meu Kung Fu.

 

Continue em frente

Acredito que eu esteja num processo de desalinhamento interno já há algum tempo. E isso vem se refletindo em diversos segmentos da minha vida. Comumente, as pessoas chamam isso de “perder o centro”. Um praticante de Ving Tsun chamaria isso de “perder a linha central”. Mas, o que fazer diante do desequilíbrio? Gostaria de dar ao leitor (e a mim mesma) uma resposta pronta, o que facilitaria muito para ambos. O desenvolvimento humano requer, também, encarar as adversidades. Sejam as mais dolorosas possíveis.

Quando meu Si Fu, mestre Julio Camacho, nos incentivou a realizarmos os Registros Orientados de Vida-Kung Fu, ele nos falou da dimensão que esse ato pode nos proporcionar ao nosso desenvolvimento, pois é uma forma de revisitar as vivências marciais e, com elas, extrair uma aprendizagem para a vida.

Eu fiz uma breve parada nas postagens desse blog e, durante esse intervalo, isso me deixou bastante incomodada. Sempre preferi mais o papel que a oratória. E, quando nem o que te agrada lhe é suficiente, “algo de errado não está certo”.
Hoje eu tive um momento de crise emocional, um episódio bastante ruim no meu trabalho e, por isso, senti a necessidade de voltar a escrever. A escrita nos ajuda a organizar as ideias, o pensamento, a vida. (Eu falo tanto disso para meus alunos e acabo por vezes não seguindo o conselho).

Mas, afinal, qual é o propósito dessas palavras de hoje aqui?
Estou praticando Kung Fu.

Através das palavras, das memórias e lições que meu mestre, direta ou indiretamente me ensinou, vou me reconectando. Tenho plena consciência de que não é tarefa fácil sair da crise; no entanto se tem algo que aprendi com meu mestre é que, até nos momentos de crise, existe uma forma de se tirar proveito dessa situação.

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Registro da minha visita hoje ao núcleo Barra. Sempre que converso com meu Si Fu é uma grande experiência.

Continuando em frente, sigamos.