Attraversiamo

Há um filme que gosto bastante e que costumo rever de vez em quando. A princípio, “Comer, Rezar, Amar” aparenta ser somente mais uma adaptação cinematográfica de livros autobiográficos com uma dose generosa de romantismo, viagens dos sonhos e autoajuda. Mas, se tem uma coisa que sempre levo comigo, conforme aprendi com meu Si Fu, é colocar a lente Kung Fu sob todos os aspectos a serem vivenciados. Inclusive, assistindo filmes considerados “clichês”.

Há um dado momento do filme em que a personagem principal é inquirida sobre a sua palavra de vida, aquela que poderia traduzir a sua existência. E, ao longo da trama, ela passa por inúmeras experiências até que ao final, ela manifesta a sua palavra: attraversiamo.

Cena do filme “Comer, Rezar, Amar”, estrelado por Julia Roberts. Imagem: Divulgação/Columbia Pictures.

Essa curiosa palavra em italiano me veio à mente ao rememorar, para registrar, o evento inaugural da segunda parte do projeto “Desvendando”, uma sequência de encontros promovidos pelo meu Si Fu, em continuidade aos estudos dos domínios do Sistema Ving Tsun, agora, tratando do segundo domínio: o Cham Kiu (尋橋).

Desde novembro de 2018 pratico o Cham Kiu e confesso que ainda tenho uma certa “questão” com esse domínio. Acredito que agora, com as explicações sobre a sua natureza, tenha uma percepção do que esteja acontecendo internamente: talvez seja pelo fato do Cham Kiu me confrontar com a necessidade real de atravessar determinadas situações da minha vida e que acabo por protelar o processo. Mas sinto que, assim como na primeira parte do projeto, muitas questões serão “desvendadas” e a minha relação com essa ponte terá desdobramentos surpreendentes.

Reunião do “Desvendando o Cham Kiu“, na noite de ontem, 23/09/2020.

Voltando ao filme e fazendo um paralelo, a ideia de attraversiamo é algo bastante significativo, haja vista que é um verbo no plural – vamos atravessar. Além disso, é uma ação no tempo presente, o que traz uma proposição contínua, tal como a prática do Cham Kiu – diária, sempre.

A grande lição da noite veio de algo bem pequeno, do tamanho de um cham: para pequenos obstáculos, faça pequenas pontes. Muitas.

Attraversiamo!

Autenticidade

“Always be yourself, express yourself, have faith in yourself.”

Bruce Lee

 

Ser você mesmo. Uma resolução simples. Parece fácil, não? Contudo, requer mais esforço do que se supõe, ainda mais diante da complexidade social e psíquica em que vivemos atualmente.

Convencionamos o uso de múltiplas “máscaras” perante os outros. Para cada situação, um”eu” diferente sai para uma espécie de teatralização; mas, a que ponto deixamos de ser nós mesmos dentro desse processo? Claro que necessitamos do outro para construirmos a nossa humanidade. Mas a alteridade não pode suprimir a autenticidade.

Ser autêntico traz muitos desconfortos. Inúmeros. Todo desenvolvimento requer incômodo. Tornar insignificante nossos desejos, a ponto deixarmos a energia fluir sem impedimentos, é um longo processo. Muitas vezes, somos confrontados aspectos bastante negativos da nossa essência e, por isso, a vontade de desistir é frequente.

A nossa tendência é sermos ou objeto, ou sujeito do desejo manipulatório, que se caracteriza pela imposição da vontade (o tal “forçar a barra”), em detrimento do cenário que está a nossa volta. Portanto, ser autêntico implica em, mesmo diante do outro, não se perder, não se permitir ser usado.

photo5078370301909248190
Meu Si Fu, com frequência, nos apresenta a importância de sermos nós mesmos. A busca pela autenticidade é um dos pilares do Sistema Ving Tsun.

Disso tudo, tratei de arte marcial. Mas, poderia ser sobre a vida, pois, como dizia o Si Taai Gung, Patriarca Moy Yat: “O que é Kung Fu? É vida. E o que é a vida? Vida é tudo”.

Autentique-se!

 

O poeta, a palavra e a luta

Quase sempre, quando estou aguardando alguém ou alguma situação, dou um jeito de ler qualquer coisa ao meu redor para manter a mente entretida. Hoje em dia, o celular cumpre essa tarefa de “entretenimento”; contudo, de vez em quando, é bom retornar às antigas formas de comunicação, tal como revistas e livros.

Foi dessa forma, na busca por qualquer coisa para ler, que peguei um livro de redação e, ao folheá-lo, me deparei com o poema “O lutador”, de Carlos Drummond de Andrade. Nunca tinha lido, nem sabia desse texto em específico, embora seja uma modesta conhecedora da obra do poeta.

photo5030698320997230702
O poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Foto: Reprodução/internet

Ao terminar a leitura, vi que meus planos de postar sobre qualquer outro assunto haviam sido minados. A riqueza da construção poética me fez refletir e me levou a escrever sobre ele. Colocarei alguns trechos:

“Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali.”

No poema, Drummond revela a constante luta que travamos com as palavras. Ele, enquanto poeta, lança um olhar sobre a dualidade que as palavras exercem na vida de qualquer um: ao mesmo tempo em que necessitamos delas para a sobrevivência, elas podem se tornar nossas maiores adversárias.

Quantas vezes lançamos ao outro uma palavra atravessada? Quantas vezes fomos incompreendidos por palavras fora de contexto? Ou quantas vezes o silêncio deveria ter sido a melhor resposta para um desagravo? Sim, a palavra (ou sua ausência) faz parte da nossa “guerra diária”.

O senso comum compreende que a luta é a troca de socos e chutes; porém, como já ouvi do meu Si Fu, ao longo da nossa vida podemos ficar sem um momento sequer de exposição à luta corporal. Então, para quê aprendemos uma arte marcial? Para que necessitamos do Kung Fu? Para a verdadeira luta do dia a dia que, muitas das vezes, nos é apresentada através de palavras.

“Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue
Entretanto, luto.

Palavra, palavra
(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate.”

Meu Si Fu sempre fala a própria consideração sobre Kung Fu. Para ele, Kung Fu é uma espécie de lente, onde percebemos o mundo através dele. Quando desenvolvemos nosso Kung Fu, observamos nosso cotidiano de forma diferente, com o intuito de aproveitarmos as situações que nos são apresentadas e delas tirarmos o melhor proveito.

photo5030698320997230704
Numa demonstração de movimentos no MoGun, eu e meu Si Fu, mestre Julio Camacho, enquanto somos observados pelo Si Hing Claudio Teixeira (à esquerda) e demais membros da Família Moy Jo Lei Ou. Abril de 2019

Tendo em vista essa lente do Kung Fu, a observação do outro é extremamente necessária para lidar com as circunstâncias. A atenção constante e cuidadosa é parte fundamental desse processo, pois ao fazê-la, estamos nos protegendo mutuamente, inclusive das nossas próprias armadilhas.

“O ciclo do dia
ora se conclui 8
e o inútil duelo
jamais se resolve.
O teu rosto belo,
ó palavra, esplende
na curva da noite
que toda me envolve.
Tamanha paixão
e nenhum pecúlio.
Cerradas as portas,
a luta prossegue
nas ruas do sono.”

Si Taai Gung, Patrarca Moy Yat, falava que o Ving Tsun é tão bom que a gente aprende até a lutar. Que sejamos bons lutadores com as palavras e que elas nos sejam úteis para um desenvolvimento humano pleno. Sigamos!

 

Atualizar o coração

Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.

(Antoine Saint-Exupéry)

 

Aqui é um relato vindo do coração.

O mesmo coração que tanto foi comentado na noite de ontem, na aula introdutória sobre o Siu Nim Tau, o primeiro domínio do Sistema Ving Tsun. De um coração que aceitou o convite do Si Fu para ingressar à Família Moy Jo Lei Ou, há quase quatro anos.

Voltar aos fundamentos do Sistema Ving Tsun é uma oportunidade especial para todos aqueles que desejam se aprofundar e (re)conectar com o desenvolvimento das próprias capacidades. No meu entender é, sem dúvidas, um dos maiores eventos do nosso Clã em 2020.

photo5019635279811684502
Meu Si Fu, mestre sênior Julio Camacho, no encontro “Desvendando” sobre o Siu Nim Tau, em 12 de agosto de 2020.

A proposta do projeto “Desvendando” já se encontra no próprio vocábulo, como versa meu Si Fu: através do estudo minucioso da Trilogia Fundamental do Sistema Ving Tsun (Siu Nim Tau, Cham Kiu e Biu Ji), tirar as vendas que atrapalham nossa percepção sobre o Kung Fu. Ver o que de fato as coisas são, sem preconceitos, fábulas ou distorções. E, se o que é a essência, por vezes, encontra-se no invisível das nossas questões e inquietações pessoais, trazer o que há de mais autêntico de nós mesmos é possível através do olhar pelo coração.

Compreender o significado do Siu Nim Tau (念頭), por meio da listagem de movimentos ou pela análise dos ideogramas que compõe o termo, é importante; contudo, não somente. O que meu Si Fu trouxe ontem, ao falar das impressões do Si Taai Gung, Patriarca Moy Yat, e das suas próprias, é a possibilidade de nós, praticantes, encontrarmos nossa autenticidade através da prática frequente do Siu Nim Tau. Dessa forma, trilhar pelo “início da ideia”, um das interpretações do domínio, é buscar o desenvolvimento constante: lembrar suas experiências, atualizá-las às circunstâncias e não impor a sua vontade.

photo5019635279811684499
Hoje foi a primeira vez que eu fiz, por caligrafia, os ideogramas que compõe o nome “Siu Nim Tau’ (念頭). É um exemplo de como é o meu Siu Nim Tau: imperfeito, em atualização constante.

Uma das grandes qualidades de meu Si Fu é essa capacidade de “atualizar o coração”(Nim), trazida pelo Siu Nim Tau. Sem distinção, ele se coloca a ouvir o que cada um de nós tem para ser dito, inclusive nossos silêncios. Acredito que essa é uma das grandes lições cotidianas que ele nos oferece: faça o Siu Nim Tau. Sempre.

photo5019635279811684485
Eu e meu Si Fu, no antigo núcleo Barra. Outubro de 2019.

Eu comecei esse relato de experiência falando de coração. Que, ao longo dessa grande jornada na vida Kung Fu, o meu desejo se reduza a tão somente estar mais próxima do meu Si Fu. De coração para coração. Sigamos!

Vazios

Quando fechei a porta do núcleo Barra, na última sexta-feira, junto com Carmen Maris, Fernando Xavier, Claudio Teixeira e Rafael Machado, meus irmãos Kung Fu, o sentimento era de encerramento de um ciclo. Mas, de forma alguma, isso é negativo. Longe disso.

Carmen, Rafael e Fernando cuidando dos últimos detalhes para a entrega do imóvel

A sala vazia me trouxe reflexões. Nesse momento, é necessária essa tomada de decisão por parte da nossa família. Dentro desse processo decisivo, o retorno positivo e o engajamento dos membros são demonstrativos de que “seguir juntos”, mais que uma proposição, é uma efetivação. Pode parecer estranho, mas o vazio de não termos um lugar físico, temporariamente, gera um potencial infinito de se reinventar. Isso é Kung Fu.

De fato, muitas felicidades foram vividas ali e isso a memória fará sua parte em mantê-las em nossas mentes e corações. E outras lembranças serão construídas num outro lugar, num novo capítulo da Família Moy Jo Lei Ou.

Apresentação do núcleo Barra, ainda em reforma, à Família MJLO, em dezembro de 2017

Lembro de quando meu Si Fu, mestre Julio Camacho, explicou sobre a logo da nossa família. A presença de um vazio no meio da flor, da nossa moy fa, simboliza essa necessidade de termos um vazio, que carrega o potencial de ser preenchido. E cabe a nós, discípulos e membros, fluir e agir para mantermos tudo a contento.

Saibamos aproveitar a experiência da maneira mais estratégica, esvaziando nossas mentes e corações de temores ou vaidades, diminuindo o Nin Tau.

Mais que sempre, sigamos juntos!

Memória em Vermelho

Recentemente, durante o último Colóquio realizado no núcleo Barra, meu Si Fu, mestre sênior Julio Camacho, conversou sobre o significado do pano vermelho usado nos quadros de Ip Man, nosso Si Jo e Moy Yat, nosso Si Taai Gung.

Foto Si To – Moy Yat e seu mestre Ip Man

O vermelho é uma cor que, simbolicamente, nos remete à vida. E dentro da perspectiva chinesa, a relação com a morte possui um viés memorial e não espiritual. Ao colocarmos um pano vermelho sobre os quadros dos nossos ancestrais, estamos prestando respeito a eles e trazendo-os para a nossa memória.

Patriarca Moy Yat

Hoje, completam-se dezenove anos da morte de Moy Yat. Eu não tive a oportunidade de estar com o Patriarca pessoalmente. Mas, toda vez que meu Si Fu conta um pouco das suas histórias com Si Taai Gung, é como se eu tivesse convivido com ele também. Através das memórias e das experiências vividas, o legado de Moy Yat está presente, mais que nunca.

Mestre Julio Camacho e Patriarca Moy Yat

Moy Yat foi um homem extraordinário, uma pessoa fora da curva, como costuma falar meu mestre. Temos a responsabilidade de preservar o seu legado e trazê-lo para a memória do presente e das futuras gerações.

Sigamos!

(Re)unir

Dia 23 de dezembro. Nessa época do ano, há uma desaceleração natural do ritmo de trabalho, as pessoas se reservam em comemorar os festejos de fim de ano. Mas hoje, em plena segunda-feira, mestre Julio Camacho e alguns dos membros vitalícios da família Moy Jo Lei Ou se reuniram para traçar novos desafios para o próximo ano.

Eu tenho a boa sorte de estar presente neste momento basilar do Conselho de Membros Vitalícios da Família Moy Jo Lei Ou, que terá a fundação em 25 de janeiro de 2020. Essa nova empreitada tem elementos mais que suficientes para trazer frutos significativos para as gerações futuras.

Reunião de Membros Vitalícios com Si Fu, 23/12/2019

Como foi falado durante a reunião de hoje, vivemos um momento histórico para a nossa família. E, me apoiando numa das falas do meu irmão Kung Fu William Franco, reflito sobre que tipo de história queremos escrever, fazer parte. Creio que seja um período crucial para nós e, mais que seguirmos juntos, é o momento de pensarmos e nos responsabilizarmos juntos em nome da nossa família. O momento é de (re)unir.

Sigamos!

Moy Kat Ming

Certa vez, diante de um momento precioso, fiquei sem palavras. Nesta ocasião, meu Si Fu,  mestre Julio Camacho me aconselhou a encontrá-las e me expressar ao mundo. Ao falar de Carmen Maris, todas as palavras são poucas e imprecisas para representar a grandeza dessa irmã.

photo5181736395058817099
Carmen Maris com Grão-Mestre Leo Imamura, em janeiro de 2019.

Desde a sua chegada ao Clã Moy Jo Lei Ou, é impressionante ver o quanto Carmen se destacou e se tornou uma pessoa fundamental para a nossa família. Não há ninguém que não tenha admiração por ela. É uma mulher que possui uma dedicação e um amor ao Ving Tsun que me comove profundamente. Carmen passa verdade em tudo que se propõe a fazer.

photo5181736395058817098
Fernando Xavier apresentando Carmen Maris ao Si Fu, Cerimônia de Admissão ao Clã Moy Jo Lei Ou, em novembro de 2018.

Eu sempre brinco que, ao chegar nos lugares, ela parece o Sol adentrando o recinto. Sem dúvidas, Carmen  é brilhante em tudo em que se propõe a fazer, tal como o seu nome Kung Fu evidencia: Moy Kat Ming (梅吉明). Uma das suas características marcantes é estar atenta às situações, demonstrando um grande zelo ao Si Fu, Si Mo e seus irmãos Kung Fu.

photo5181736395058817101
Cerimônia de Discipulado (Baai Si) de Carmen Maris, em março de 2019.

Mais do que a minha irmã mais nova dentro da família Kung Fu, Carmen é minha irmã de vida. Talvez eu  não tenha tido a chance de expressar a sua real importância para mim, contudo, aproveito esse solstício para dedicar essas palavras. Sempre estamos em contato e é uma felicidade enorme cada momento que conversamos, rimos ou praticamos juntas.

photo5181736395058817103
Eu e Carmen.

Carmen, há um caminho lindo e auspicioso que você já está trilhando no Kung Fu. Desejo que eu possa estar perto para ver o desenvolvimento da sua jornada.

Sigamos!

 

 

Encontros a Distância

Excepcionalmente, hoje não teve o Encontro Temático a Distância, um dos instrumentos estratégicos do Clã Moy Jo Lei Ou. Isso gerou uma condição favorável para refletir e expressar um pouco sobre esses instantes que se tornaram parte do meu cotidiano, positivamente. Para mim, esses encontros semanais são momentos em que tenho a oportunidade de estar mais em contato com meu Si Fu, mestre Julio Camacho e aprender bastante sobre temas variados, sob a perspectiva Kung Fu.

ETD 14 08 2019
Registro de um dos Encontros Temáticos a Distância, realizado em agosto de 2019

Nos dias atuais, manter contato com outras pessoas a distância é, de certo modo, facilitado pelas tecnologias disponíveis. O mundo está interligado pelas mídias sociais e mensageiros instantâneos. Mas, às vezes me questiono se essa facilidade nos conecta, de fato, como seres humanos ou nos afastou por completo. Neste sentido, percebo neste instrumento um potencial de desenvolvimento humano riquíssimo ao se aproveitar das circunstâncias para trocarmos ideias e termos uma proximidade com nosso mestre.

WhatsApp Image 2019-05-14 at 21.06.36
Reunião a distância com Si Fu e discípulos no núcleo Barra, em maio de 2019

Em diversas ocasiões, Si Fu comentou sobre sua experiência de manter a conexão com o seu mestre, apesar da distância (Rio de Janeiro/São Paulo).  Futuramente, seremos nós, discípulos de mestre Julio Camacho que construiremos a experiência de termos um Si Fu em outro lugar. Isso não quer dizer que não estaremos conectados; ao contrário, os Encontros Temáticos a Distância serão uma ferramenta crucial para nos mantermos alinhados com o nosso mestre.

photo5152345061973927978
Si Fu conduzindo um encontro a distância com Si Gung, Grão-Mestre Leo Imamura, em razão do aniversário do Patriarca Moy Yat – 28 de junho de 2018

Há um provérbio chinês que diz: “A mente tem o passo ligeiro, mas o coração vai mais longe”. Quando há conexão, o coração chega em qualquer distância. Sigamos!

Escrever sobre memórias é um exercício orgânico para não esquecer. Assim como fazer caminhada, pedalar ou malhar para que o corpo não sucumba.

Muitas vezes, somos tomados pelos pensamentos e estes, não tendo mais “espaço” na cabeça, precisam ser postos para fora. Eu faço isso através da escrita.

Ultimamente, minha “caixa” anda lotada, mas por alguma razão, há uma trava entre a caixa e a caneta.

Bem, venho refletindo muito sobre minha vida e nos rumos que ela está tomando (ou deixando de tomar). Tenho vontade de desistir de muitas coisas. É um sentimento temporário; no entanto, tornou-se mais presente nos últimos dias.

Não quero ficar me justificando, até porque justificativas só explicam algo, mas não apontam solução alguma.

Todas essas palavras que escrevi não tem nada a ver com Kung Fu, certo?

Aos olhos do leigo, escrever sobre marcialidade é se referir a golpes, socos e chutes. Será que é somente sobre isso? E nossas lutas internas? Nossas constantes, silenciosas e angustiantes guerras travadas no nosso íntimo.

Costumava me perguntar o porquê das pessoas, na atualidade, buscarem alguma arte marcial para praticarem. Boa parte vive a ilusão de quebrar tábuas com um só golpe ou levitar como num filme do Ang Lee. Outras simplesmente pensam no corporal ou pra dar “porrada” em alguém.

Ultimamente, eu volto essa pergunta para mim: por que ainda prático arte marcial? E sinceramente, não tenho uma resposta definida neste momento. Como disse, minha mente anda lotada de pensamentos, alguns desses questionando antigas e novas proposições.

Uma das poucas certezas que tenho vem de um conselho que meu mestre Julio Camacho me oferece (e me lembra com uma certa frequência nos últimos tempos): mais do que nunca, preciso escrever.