Tomada de Decisão

A vida é um conjunto complexo de sucessivas decisões. Cada uma dessas decisões, sejam ações ou omissões, trazem consequências e responsabilidades. O que aflige boa parte das pessoas, inclusive a mim, é de que forma decidir, como saber qual é o “certo” a se fazer.

Eu sempre ouço do meu Si Fu, mestre Julio Camacho, a ideia de situações adequadas, ao invés de “certo” e “errado”. Dependendo das circunstâncias, o que é considerado “correto” pela generalidade não é o adequado para aquela ocasião.

Eu e meu Si Fu, durante Seminário de Alinhamento Prático realizado neste ano

Nós, praticantes de Ving Tsun, estamos diante de inúmeras decisões durante a prática marcial e cada movimento impensado gera uma conseqüência. Claro que no Mo Gun (espaço de luta), o combate é simbólico; contudo, na realidade, um deslize separa a vida da morte.

Essas reflexões sobre tomada de decisões estão sempre presentes para mim, sobretudo no momento atual de prática. Enquanto faço o Chi Sau (“mãos aderidas”), estou diante de infinitas possibilidades para acessar o espaço do outro, o que requer observação, humanidade e uma resolução. Antecipar ou retardar um movimento, por mais insignificante que se pense, pode ser “fatal”.

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Si Fu demonstrando alguns aspectos do Chi Sau

Isso me faz lembrar de uma conversa que tive com meu Si Fu. Ele me contou sobre a origem da palavra fácil, que vem do latim e significa fazer. Então, disse ele, por conclusão, a ideia de difícil é algo que não dá para ser feito. Você só sabe se algo é fácil ou difícil se você realmente faz. Um julgamento a priori não te dá condições de análise.

Para mim, tomar decisões é ainda um processo difícil, mas se eu sei disso é porque eu faço decisões. A partir das minha falhas, eu aprimoro minha prática e, por sequência, meu Kung Fu.

 

Continue em frente

Acredito que eu esteja num processo de desalinhamento interno já há algum tempo. E isso vem se refletindo em diversos segmentos da minha vida. Comumente, as pessoas chamam isso de “perder o centro”. Um praticante de Ving Tsun chamaria isso de “perder a linha central”. Mas, o que fazer diante do desequilíbrio? Gostaria de dar ao leitor (e a mim mesma) uma resposta pronta, o que facilitaria muito para ambos. O desenvolvimento humano requer, também, encarar as adversidades. Sejam as mais dolorosas possíveis.

Quando meu Si Fu, mestre Julio Camacho, nos incentivou a realizarmos os Registros Orientados de Vida-Kung Fu, ele nos falou da dimensão que esse ato pode nos proporcionar ao nosso desenvolvimento, pois é uma forma de revisitar as vivências marciais e, com elas, extrair uma aprendizagem para a vida.

Eu fiz uma breve parada nas postagens desse blog e, durante esse intervalo, isso me deixou bastante incomodada. Sempre preferi mais o papel que a oratória. E, quando nem o que te agrada lhe é suficiente, “algo de errado não está certo”.
Hoje eu tive um momento de crise emocional, um episódio bastante ruim no meu trabalho e, por isso, senti a necessidade de voltar a escrever. A escrita nos ajuda a organizar as ideias, o pensamento, a vida. (Eu falo tanto disso para meus alunos e acabo por vezes não seguindo o conselho).

Mas, afinal, qual é o propósito dessas palavras de hoje aqui?
Estou praticando Kung Fu.

Através das palavras, das memórias e lições que meu mestre, direta ou indiretamente me ensinou, vou me reconectando. Tenho plena consciência de que não é tarefa fácil sair da crise; no entanto se tem algo que aprendi com meu mestre é que, até nos momentos de crise, existe uma forma de se tirar proveito dessa situação.

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Registro da minha visita hoje ao núcleo Barra. Sempre que converso com meu Si Fu é uma grande experiência.

Continuando em frente, sigamos.

Pra Dizer que Falei de Flores

O caractere 梅 na língua chinesa (moy numa das possibilidades de romanização) representa ameixa. A flor de ameixeira possui um simbolismo bastante forte na cultura chinesa e, especialmente, na cultura do Sistema Ving Tsun. Durante o Seminário de Alinhamento Teórico, realizado neste ano, meu Si Fu, mestre Julio Camacho, versou com propriedade sobre o assunto.

Meu Si Fu, Mestre Julio Camacho, no Seminário de Alinhamento Teórico, em 4 de maio de 2019.

Em primeiro lugar, as cinco pétalas da flor de ameixeira representam os grupos étnicos que formam a China: Han, Manchus, Mongóis, Tibetanos e Muçulmanos. A isso, atrela-se a simbologia do número 5, tido como “o número do homem”.

Em segundo, a própria flor de ameixa é associada ao surgimento da Primavera, período mais importante do ano para os chineses. Certa vez, meu Si Fu comentou que na China a ideia de passagem das estações acontece de acordo com a observação da natureza. Portanto, quando a primeira flor brota nos galhos, é sinal de que a Primavera chegou. E isso não necessariamente ocorre ao mesmo tempo em todo o país. A Primavera chega quando você a observa.

A representação da flor de ameixa relacionado com o Ving Tsun se estende ao nome da fundadora do nosso Sistema marcial, Yim Ving Tsun, que significa “cantar a primavera”.

Outra nota cultural sobre a flor de ameixeira está na simbologia do Sistema Ving Tsun e na própria denominação da nossa Família. Meu Si Taai Gung, Patriarca Moy Yat, tem o ideograma ameixa no nome (). E, todos nós, que somos da linhagem do Patriarca Moy Yat, carregamos essa identidade nos nomes Kung Fu.

Placa com a logo da Moy Yat Ving Tsun Martial Intelligence, que fica na sede do Clã Moy Jo Lei Ou, na Barra da Tijuca.

Meu Si Fu relembrou, na ocasião do Seminário de Alinhamento Teórico, uma passagem em que o Si Taai Gung diz que “a flor de ameixeira é o equivalente natural ao Sistema Ving Tsun, porque o galho é angular, duro e a flor nasce direto do tronco”. De fato, diante das adversidades do dia a dia, o Ving Tsun surge como uma ferramenta para desenvolver as potencialidades humanas, dentro da sutileza e da resiliência.

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Patriarca Moy Yat

Recentemente, li que as flores de ameixa, por nascerem de forma escassa e em condições adversas (logo após um rigoroso inverno), são admiradas individualmente. Faço um contraponto simbólico com cada praticante de Ving Tsun. Cada um com sua natureza, desenvolvendo o seu Kung Fu, sob o olhar atento e único do Mestre. Há um provérbio chinês que diz: “Todas as flores do futuro estão contidas na semente de hoje”. Das flores do Ving Tsun, somos essas sementes.

Sigamos!

Atravessar a ponte

Quando eu comecei a praticar Ving Tsun, uma nova perspectiva me foi apresentada em relação a forma de transmissão de Sistema Marcial. Uma das frases que meu Si Fu diz sempre é: “Ving Tsun não se ensina, se aprende.”

Para quem vem de uma lógica escolar tradicional, das lições decoradas, isso é um verdadeiro “bug” mental. A propósito, Si Fu explicou certa vez a origem da palavra ensinar, que vem de “colocar signo, por uma marca”. De fato, o que se vê em outros lugares, inclusive na escola ainda, é essa ideia de vir com algo pronto e mostrar isso aos alunos.
Mas não no Ving Tsun.

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Seminário de Alinhamento Teórico, em janeiro de 2018.

Desde novembro do ano passado, estou no segundo domínio do Sistema chamado Cham Kiu, que significa “atravessar a ponte”. É o mais longo dos domínios do Sistema e, para mim, até o momento, o mais complexo.

Eu me lembro que, à época do acesso a este nível, Si Hing Claudio Teixeira havia dito a mim que o Cham Kiu foi o período mais desafiador para ele. Realmente, quando já me sentia confiante por ter aprendido o Siu Nin Tau, veio o Cham Kiu para me mostrar que a coisa não é bem assim (risos).

Cerimônia de Acesso ao Cham Kiu, em 17 de novembro de 2018.

A relação familiar dentro do Ving Tsun é formada pela relação direta entre mestre e aluno (Si Fu e To Dai). Mas, em paralelo, existem outras relações que colaboram para movimentar essa relação familiar. É na troca de experiências com os meus irmãos Kung Fu, no cotidiano das práticas, que venho atravessando essa ponte. Claro que as minhas inseguranças estão presentes e são muitas (muitas mesmo). Contudo, a cada movimento do Cham Kiu, a cada sequência que consigo fazer, é uma conquista dentro dessa jornada.

Meus irmãos Kung Fu: Cláudio Teixeira, Fernando Xavier, Leonardo Reis, André Guerra, Roberto Viana e Clayton Meireles.

Cora Coralina, poetisa que tenho grande afeto, dizia o seguinte: “O saber se aprende com os mestres. A sabedoria, só com o corriqueiro da vida”. Ela viveu por muitos anos em Goiás, na chamada Casa da Ponte (coincidência?). A ponte tem um significado poderoso de travessia, de caminho. E relendo esse pensamento dela, vejo que meu mestre está e sempre estará presente comigo, compartilhando suas experiências, seus saberes. E no corriqueiro da Vida-Kung Fu, estarei construindo afetos, desenvolvendo o humano e enxergando muito além do horizonte.

Sigamos!

A Foto Si-To

Na convivência, o tempo não importa.
Se for um minuto, uma hora, uma vida.
O que importa é o que ficou deste minuto,
desta hora… desta vida…

Mario Quintana

As fotos guardam uma intencionalidade: de preservar pelo tempo um instante da nossa história. Sempre quando fazemos um registro fotográfico e olhamos para aquela imagem no futuro, é uma espécie de imersão àquele período, vindo à tona as sensações, os fatos. A fotografia é a nossa memória em imagem. Lembro-me bem que uma vez Si Fu me disse que aquele que registra a foto é parte integrante daquele cenário, haja vista que sem ele, a captura não existiria.

Uma das primeiras tarefas que meu Si Fu passou para mim, recém chegada à Família-Kung Fu, foi trocar a moldura de uma foto. Mas, não era qualquer foto. Era o seu primeiro registro oficial com o mestre dele, meu Si Gung, Grão-Mestre Leo Imamura, em 1994. A esse registro, damos o nome de Foto Si-To.

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Primeira foto oficial do mestre Julio Camacho, meu Si Fu com o seu mestre, Grão-Mestre Leo Imamura, meu Si Gung, em 1994.

Pois bem, eis que fiquei olhando para aquele retrato e fiquei admirada com o caráter simbólico daquele momento, além da marcação da passagem do tempo (ver ambos jovens e com muitas histórias para vivenciar). A Foto Si-To representa em imagem a relação entre Si Fu e To Dai.

Enquanto passava a foto de uma moldura para a outra, fiquei pensando: “quando é que terei então a minha Foto Si-To?”. Era uma vontade íntima e não havia externado isso a ninguém, nem mesmo ao Si Fu. Fiquei no aguardo de uma oportunidade.

E o tempo foi passando, via alguns registros serem feitos pós eventos, nos intervalos de prática, até mesmo no meio de uma obra, durante a reforma do atual núcleo do Clã, na Barra da Tijuca. E nada da minha vez chegar…

Na inauguração do núcleo Barra, em março de 2018, fui incumbida dos registros da cerimônia. Na época, fiquei bastante apreensiva por tamanha responsabilidade, mas a família gostou do resultado. Tanto que fui chamada para fazer o registro de outros eventos do Clã. Dentro da Família-Kung Fu, desenvolvem-se habilidades que, talvez, em outro espaço, não seriam possíveis.

Foi então que numa noite, cuja a data não me recordo, tinha ido ao núcleo Barra para ver alguns assuntos. Eu me lembro que nem roupa de prática tinha levado, mas algo me dizia que era para ir com vermelho (risos). Eu havia feito alguns registros naquela momento, alguns eram com o Si Fu e meus Si Hing. E, para minha surpresa, numa determinada hora, Si Fu me chama para fazer a tão esperada Foto Si-To. Imagine a minha alegria naquele momento!

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Minha primeira Foto Si-To, em 2018.

Depois desse momento ímpar, ainda tive que administrar a ansiedade de receber a tão esperada foto, o que aconteceu quase um mês depois, através do meu Si Hing Iuri Alvarenga. Outros registros vieram depois, mas o primeiro sempre terá um lugar especial nas minhas lembranças.

Essa história eu relembrei tempos depois, no jantar de abertura do processo discipular da minha irmã Carmen Maris. Si Fu havia pedido aos membros da família presentes na ocasião que contassem uma experiência marcante e a expectativa para a primeira Foto Si-To foi realmente algo memorável à mim.

Dia seguinte ao jantar, recebo uma mensagem do Si Fu com esta imagem:

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Fiquei sem palavras, verdadeiramente emocionada. Recordo que demorei um certo tempo para responder em agradecimento àquele presente tão especial. E foi então que Si Fu me diz para encontrar as palavras e compartilhar com o máximo de pessoas possível. De certo modo, Si Fu, naquele instante, havia me dado dois presentes: a foto e sua confiança em mim para eu continuar com meus registros sobre Vida-Kung Fu.

Espero intensamente que nossa relação Si Fu / To Dai seja duradoura e que as fotos estejam lá para registrar nossa caminhada juntos. Sigamos!

Apenas Faça

Hoje poderia ter sido mais um sábado qualquer, de um mês qualquer, como tantos outros do calendário. Mas, a partir do momento em que se faz parte de uma família Kung Fu e, especialmente, quando se é discípula do mestre Julio Camacho, meu Si Fu, o corriqueiro toma nuances de singularidade.

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Si Fu comentando sobre a importância dos Registros Orientados de Vida-Kung Fu

Enquanto conversava com os discípulos presentes sobre os Registros Orientados de Vida-Kung Fu, um dos instrumentos estratégicos do Clã Moy Jo Lei Ou, meu Si Fu lembrou das palavras do Si Taai Gung, o patriarca Moy Yat. Entre ficar elaborando com a ideia de fazer o melhor e fazer simplesmente, apenas faça. Para mim, essas palavras fizeram completo sentido e, mais que isso, ressoaram como um despertar. Escrever sobre minhas experiências de vida-Kung Fu é, ao mesmo tempo, um ato prazeroso e desafiador. Como em outras situações, sempre quero fazer o melhor de mim, contudo, isso acaba por “travar” as ideias muitas das vezes.

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Pela lente da minha querida irmã Kung Fu Carmen Maris, que registrou minha atenção às palavras do Si Fu.

Meu Si Fu sempre acreditou no meu potencial e ter a certeza disso me motiva, ainda que às vezes eu mesma não me dê tanto crédito assim. Um dos fundamentos da Moy Yat Ving Tsun é o desenvolvimento humano através da experiência e a relação entre Si Fu e To Dai possibilita esse crescimento, aprendendo com o coração – Saam Faat. O mesmo coração que certa vez Si Fu me disse que eu devia colocar em todas as coisas que eu me dedicar. Seguindo essa recomendação, sigo escrevendo.

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No dia da entrega do meu Certificado de Discipulado, em dezembro de 2018. Um dos muitos momentos de alegria com meu Si Fu.

Acredito que hoje foi um daqueles dias do cotidiano que serão lembrados por muito tempo pelo significado na minha trajetória na família Kung Fu. Não só pelas palavras do Si Fu, mas também por outros acontecimentos tão marcantes quanto. Mas isso já é uma outra história…

Sigamos Juntos!

Quando dois homens vêm andando na estrada, cada um carregando um pão, e trocam os pães quando se encontram, cada um vai embora com um pão. Mas, quando dois homens vêm andando pela estrada, cada um com uma ideia, e ao se cruzarem trocam as ideias, cada um vai embora com duas ideias.

Provérbio Chinês

Dentro do Clã Moy Jo Lei Ou há uma diversidade de pessoas que carregam uma bagagem de vivências significativas. Para nós, que temos como premissa o desenvolvimento humano, a disponibilidade de compartilhar saberes é uma oportunidade rica e agregadora. Foi assim neste sábado, dia 13 de abril, com o Primeiro Programa de Treinamento Gerencial, ministrado pelo Si Hing Fabiano Silva, o mesmo curso promovido em renomadas instituições de ensino superior do país. Por iniciativa própria, Si Hing Fabiano Silva, colocou-se à disposição da família Kung Fu para compartilhar seus ensinamentos sobre gestão e estratégia de negócios, reconhecidos no campo acadêmico e empresarial. Sem dúvidas, foi um dia de  grandes aprendizados para todos os presentes no evento.

Encontro sobre Gestão com Si Hing Fabiano Silva – 13/04/2019, na sede do Clã Moy Jo Lei Ou, núcleo Barra

Um dos temas abordados no encontro foi o slogan “Sigamos Juntos”, que fora criado de forma espontânea na convivência com a família e, especialmente, com o nosso Si Fu. Mas que uma frase de efeito ou um lema, “Sigamos Juntos” é uma convocação para o engajamento de todos nós, membros do Clã Moy Jo Lei Ou, diante das adversidades e desafios que enfrentamos. “Sigamos Juntos” se alinha diretamente ao próprio conceito de aprender com o coração, de vida Kung Fu (Saam Faat).

De fato, o Sistema Ving Tsun promove uma experiência para além da marcialidade e, ao ouvir as palavras do Si Fu sobre a Visão da Moy Yat Ving Tsun, houve internamente para mim uma espécie de reconexão, um desejo de fortalecer ainda mais os laços com o Si Fu, a Si Mo e com o nosso Clã.

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Meu Si Fu, Mestre Julio Camacho, pontuando sobre os pilares da Moy Yat Ving Tsun – 13/04/2019, núcleo Barra

Certa vez, meu Si Fu relembrou a fala do Si Taai Gung,  patriarca Moy Yat: “Ving Tsun é tão bom que a gente aprende até a lutar”. Cada dia que passa, o Ving Tsun me proporciona aprendizagens e experiências que me ajudam a melhorar como ser humano. Desejo imensamente andar por esse caminho com a família Kung Fu. Para isso, Sigamos Juntos!