Pra Dizer que Falei de Flores

O caractere 梅 na língua chinesa (moy numa das possibilidades de romanização) representa ameixa. A flor de ameixeira possui um simbolismo bastante forte na cultura chinesa e, especialmente, na cultura do Sistema Ving Tsun. Durante o Seminário de Alinhamento Teórico, realizado neste ano, meu Si Fu, mestre Julio Camacho, versou com propriedade sobre o assunto.

Meu Si Fu, Mestre Julio Camacho, no Seminário de Alinhamento Teórico, em 4 de maio de 2019.

Em primeiro lugar, as cinco pétalas da flor de ameixeira representam os grupos étnicos que formam a China: Han, Manchus, Mongóis, Tibetanos e Muçulmanos. A isso, atrela-se a simbologia do número 5, tido como “o número do homem”.

Em segundo, a própria flor de ameixa é associada ao surgimento da Primavera, período mais importante do ano para os chineses. Certa vez, meu Si Fu comentou que na China a ideia de passagem das estações acontece de acordo com a observação da natureza. Portanto, quando a primeira flor brota nos galhos, é sinal de que a Primavera chegou. E isso não necessariamente ocorre ao mesmo tempo em todo o país. A Primavera chega quando você a observa.

A representação da flor de ameixa relacionado com o Ving Tsun se estende ao nome da fundadora do nosso Sistema marcial, Yim Ving Tsun, que significa “cantar a primavera”.

Outra nota cultural sobre a flor de ameixeira está na simbologia do Sistema Ving Tsun e na própria denominação da nossa Família. Meu Si Taai Gung, Patriarca Moy Yat, tem o ideograma ameixa no nome (). E, todos nós, que somos da linhagem do Patriarca Moy Yat, carregamos essa identidade nos nomes Kung Fu.

Placa com a logo da Moy Yat Ving Tsun Martial Intelligence, que fica na sede do Clã Moy Jo Lei Ou, na Barra da Tijuca.

Meu Si Fu relembrou, na ocasião do Seminário de Alinhamento Teórico, uma passagem em que o Si Taai Gung diz que “a flor de ameixeira é o equivalente natural ao Sistema Ving Tsun, porque o galho é angular, duro e a flor nasce direto do tronco”. De fato, diante das adversidades do dia a dia, o Ving Tsun surge como uma ferramenta para desenvolver as potencialidades humanas, dentro da sutileza e da resiliência.

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Patriarca Moy Yat

Recentemente, li que as flores de ameixa, por nascerem de forma escassa e em condições adversas (logo após um rigoroso inverno), são admiradas individualmente. Faço um contraponto simbólico com cada praticante de Ving Tsun. Cada um com sua natureza, desenvolvendo o seu Kung Fu, sob o olhar atento e único do Mestre. Há um provérbio chinês que diz: “Todas as flores do futuro estão contidas na semente de hoje”. Das flores do Ving Tsun, somos essas sementes.

Sigamos!

Atravessar a ponte

Quando eu comecei a praticar Ving Tsun, uma nova perspectiva me foi apresentada em relação a forma de transmissão de Sistema Marcial. Uma das frases que meu Si Fu diz sempre é: “Ving Tsun não se ensina, se aprende.”

Para quem vem de uma lógica escolar tradicional, das lições decoradas, isso é um verdadeiro “bug” mental. A propósito, Si Fu explicou certa vez a origem da palavra ensinar, que vem de “colocar signo, por uma marca”. De fato, o que se vê em outros lugares, inclusive na escola ainda, é essa ideia de vir com algo pronto e mostrar isso aos alunos.
Mas não no Ving Tsun.

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Seminário de Alinhamento Teórico, em janeiro de 2018.

Desde novembro do ano passado, estou no segundo domínio do Sistema chamado Cham Kiu, que significa “atravessar a ponte”. É o mais longo dos domínios do Sistema e, para mim, até o momento, o mais complexo.

Eu me lembro que, à época do acesso a este nível, Si Hing Claudio Teixeira havia dito a mim que o Cham Kiu foi o período mais desafiador para ele. Realmente, quando já me sentia confiante por ter aprendido o Siu Nin Tau, veio o Cham Kiu para me mostrar que a coisa não é bem assim (risos).

Cerimônia de Acesso ao Cham Kiu, em 17 de novembro de 2018.

A relação familiar dentro do Ving Tsun é formada pela relação direta entre mestre e aluno (Si Fu e To Dai). Mas, em paralelo, existem outras relações que colaboram para movimentar essa relação familiar. É na troca de experiências com os meus irmãos Kung Fu, no cotidiano das práticas, que venho atravessando essa ponte. Claro que as minhas inseguranças estão presentes e são muitas (muitas mesmo). Contudo, a cada movimento do Cham Kiu, a cada sequência que consigo fazer, é uma conquista dentro dessa jornada.

Meus irmãos Kung Fu: Cláudio Teixeira, Fernando Xavier, Leonardo Reis, André Guerra, Roberto Viana e Clayton Meireles.

Cora Coralina, poetisa que tenho grande afeto, dizia o seguinte: “O saber se aprende com os mestres. A sabedoria, só com o corriqueiro da vida”. Ela viveu por muitos anos em Goiás, na chamada Casa da Ponte (coincidência?). A ponte tem um significado poderoso de travessia, de caminho. E relendo esse pensamento dela, vejo que meu mestre está e sempre estará presente comigo, compartilhando suas experiências, seus saberes. E no corriqueiro da Vida-Kung Fu, estarei construindo afetos, desenvolvendo o humano e enxergando muito além do horizonte.

Sigamos!

A Foto Si-To

Na convivência, o tempo não importa.
Se for um minuto, uma hora, uma vida.
O que importa é o que ficou deste minuto,
desta hora… desta vida…

Mario Quintana

As fotos guardam uma intencionalidade: de preservar pelo tempo um instante da nossa história. Sempre quando fazemos um registro fotográfico e olhamos para aquela imagem no futuro, é uma espécie de imersão àquele período, vindo à tona as sensações, os fatos. A fotografia é a nossa memória em imagem. Lembro-me bem que uma vez Si Fu me disse que aquele que registra a foto é parte integrante daquele cenário, haja vista que sem ele, a captura não existiria.

Uma das primeiras tarefas que meu Si Fu passou para mim, recém chegada à Família-Kung Fu, foi trocar a moldura de uma foto. Mas, não era qualquer foto. Era o seu primeiro registro oficial com o mestre dele, meu Si Gung, Grão-Mestre Leo Imamura, em 1994. A esse registro, damos o nome de Foto Si-To.

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Primeira foto oficial do mestre Julio Camacho, meu Si Fu com o seu mestre, Grão-Mestre Leo Imamura, meu Si Gung, em 1994.

Pois bem, eis que fiquei olhando para aquele retrato e fiquei admirada com o caráter simbólico daquele momento, além da marcação da passagem do tempo (ver ambos jovens e com muitas histórias para vivenciar). A Foto Si-To representa em imagem a relação entre Si Fu e To Dai.

Enquanto passava a foto de uma moldura para a outra, fiquei pensando: “quando é que terei então a minha Foto Si-To?”. Era uma vontade íntima e não havia externado isso a ninguém, nem mesmo ao Si Fu. Fiquei no aguardo de uma oportunidade.

E o tempo foi passando, via alguns registros serem feitos pós eventos, nos intervalos de prática, até mesmo no meio de uma obra, durante a reforma do atual núcleo do Clã, na Barra da Tijuca. E nada da minha vez chegar…

Na inauguração do núcleo Barra, em março de 2018, fui incumbida dos registros da cerimônia. Na época, fiquei bastante apreensiva por tamanha responsabilidade, mas a família gostou do resultado. Tanto que fui chamada para fazer o registro de outros eventos do Clã. Dentro da Família-Kung Fu, desenvolvem-se habilidades que, talvez, em outro espaço, não seriam possíveis.

Foi então que numa noite, cuja a data não me recordo, tinha ido ao núcleo Barra para ver alguns assuntos. Eu me lembro que nem roupa de prática tinha levado, mas algo me dizia que era para ir com vermelho (risos). Eu havia feito alguns registros naquela momento, alguns eram com o Si Fu e meus Si Hing. E, para minha surpresa, numa determinada hora, Si Fu me chama para fazer a tão esperada Foto Si-To. Imagine a minha alegria naquele momento!

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Minha primeira Foto Si-To, em 2018.

Depois desse momento ímpar, ainda tive que administrar a ansiedade de receber a tão esperada foto, o que aconteceu quase um mês depois, através do meu Si Hing Iuri Alvarenga. Outros registros vieram depois, mas o primeiro sempre terá um lugar especial nas minhas lembranças.

Essa história eu relembrei tempos depois, no jantar de abertura do processo discipular da minha irmã Carmen Maris. Si Fu havia pedido aos membros da família presentes na ocasião que contassem uma experiência marcante e a expectativa para a primeira Foto Si-To foi realmente algo memorável à mim.

Dia seguinte ao jantar, recebo uma mensagem do Si Fu com esta imagem:

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Fiquei sem palavras, verdadeiramente emocionada. Recordo que demorei um certo tempo para responder em agradecimento àquele presente tão especial. E foi então que Si Fu me diz para encontrar as palavras e compartilhar com o máximo de pessoas possível. De certo modo, Si Fu, naquele instante, havia me dado dois presentes: a foto e sua confiança em mim para eu continuar com meus registros sobre Vida-Kung Fu.

Espero intensamente que nossa relação Si Fu / To Dai seja duradoura e que as fotos estejam lá para registrar nossa caminhada juntos. Sigamos!

Apenas Faça

Hoje poderia ter sido mais um sábado qualquer, de um mês qualquer, como tantos outros do calendário. Mas, a partir do momento em que se faz parte de uma família Kung Fu e, especialmente, quando se é discípula do mestre Julio Camacho, meu Si Fu, o corriqueiro toma nuances de singularidade.

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Si Fu comentando sobre a importância dos Registros Orientados de Vida-Kung Fu

Enquanto conversava com os discípulos presentes sobre os Registros Orientados de Vida-Kung Fu, um dos instrumentos estratégicos do Clã Moy Jo Lei Ou, meu Si Fu lembrou das palavras do Si Taai Gung, o patriarca Moy Yat. Entre ficar elaborando com a ideia de fazer o melhor e fazer simplesmente, apenas faça. Para mim, essas palavras fizeram completo sentido e, mais que isso, ressoaram como um despertar. Escrever sobre minhas experiências de vida-Kung Fu é, ao mesmo tempo, um ato prazeroso e desafiador. Como em outras situações, sempre quero fazer o melhor de mim, contudo, isso acaba por “travar” as ideias muitas das vezes.

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Pela lente da minha querida irmã Kung Fu Carmen Maris, que registrou minha atenção às palavras do Si Fu.

Meu Si Fu sempre acreditou no meu potencial e ter a certeza disso me motiva, ainda que às vezes eu mesma não me dê tanto crédito assim. Um dos fundamentos da Moy Yat Ving Tsun é o desenvolvimento humano através da experiência e a relação entre Si Fu e To Dai possibilita esse crescimento, aprendendo com o coração – Saam Faat. O mesmo coração que certa vez Si Fu me disse que eu devia colocar em todas as coisas que eu me dedicar. Seguindo essa recomendação, sigo escrevendo.

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No dia da entrega do meu Certificado de Discipulado, em dezembro de 2018. Um dos muitos momentos de alegria com meu Si Fu.

Acredito que hoje foi um daqueles dias do cotidiano que serão lembrados por muito tempo pelo significado na minha trajetória na família Kung Fu. Não só pelas palavras do Si Fu, mas também por outros acontecimentos tão marcantes quanto. Mas isso já é uma outra história…

Sigamos Juntos!

Quando dois homens vêm andando na estrada, cada um carregando um pão, e trocam os pães quando se encontram, cada um vai embora com um pão. Mas, quando dois homens vêm andando pela estrada, cada um com uma ideia, e ao se cruzarem trocam as ideias, cada um vai embora com duas ideias.

Provérbio Chinês

Dentro do Clã Moy Jo Lei Ou há uma diversidade de pessoas que carregam uma bagagem de vivências significativas. Para nós, que temos como premissa o desenvolvimento humano, a disponibilidade de compartilhar saberes é uma oportunidade rica e agregadora. Foi assim neste sábado, dia 13 de abril, com o Primeiro Programa de Treinamento Gerencial, ministrado pelo Si Hing Fabiano Silva, o mesmo curso promovido em renomadas instituições de ensino superior do país. Por iniciativa própria, Si Hing Fabiano Silva, colocou-se à disposição da família Kung Fu para compartilhar seus ensinamentos sobre gestão e estratégia de negócios, reconhecidos no campo acadêmico e empresarial. Sem dúvidas, foi um dia de  grandes aprendizados para todos os presentes no evento.

Encontro sobre Gestão com Si Hing Fabiano Silva – 13/04/2019, na sede do Clã Moy Jo Lei Ou, núcleo Barra

Um dos temas abordados no encontro foi o slogan “Sigamos Juntos”, que fora criado de forma espontânea na convivência com a família e, especialmente, com o nosso Si Fu. Mas que uma frase de efeito ou um lema, “Sigamos Juntos” é uma convocação para o engajamento de todos nós, membros do Clã Moy Jo Lei Ou, diante das adversidades e desafios que enfrentamos. “Sigamos Juntos” se alinha diretamente ao próprio conceito de aprender com o coração, de vida Kung Fu (Saam Faat).

De fato, o Sistema Ving Tsun promove uma experiência para além da marcialidade e, ao ouvir as palavras do Si Fu sobre a Visão da Moy Yat Ving Tsun, houve internamente para mim uma espécie de reconexão, um desejo de fortalecer ainda mais os laços com o Si Fu, a Si Mo e com o nosso Clã.

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Meu Si Fu, Mestre Julio Camacho, pontuando sobre os pilares da Moy Yat Ving Tsun – 13/04/2019, núcleo Barra

Certa vez, meu Si Fu relembrou a fala do Si Taai Gung,  patriarca Moy Yat: “Ving Tsun é tão bom que a gente aprende até a lutar”. Cada dia que passa, o Ving Tsun me proporciona aprendizagens e experiências que me ajudam a melhorar como ser humano. Desejo imensamente andar por esse caminho com a família Kung Fu. Para isso, Sigamos Juntos!

Good trip, good luck and see you later!

No Rio, é sexta-feira de carnaval e aniversário da Cidade Maravilhosa. Mas hoje, inicia-se também mais uma aventura a ser relembrada por anos pelos membros do Clã Moy Jo Lei Ou. O líder da nossa família, meu Si Fu, mestre Julio Camacho e os discípulos Si Hing Thiago Pereira e Claudio Teixeira farão um tour pela Europa, pelos seguintes países: Portugal, Suíça, Polônia, Bélgica e Luxemburgo.

Foto enviada por meu Si Hing Pereira ainda na madrugada do dia 01/03, no embarque.

Si Hing Cláudio Teixeira já está esperando os demais membros da comitiva em Portugal. Um grupo com três desbravadores. Não poderia ter um número mais auspicioso!

Já manifestei por diversas vezes o desejo de integrar uma dessas comitivas de viagem, mas sempre esbarra nas questões de logística da minha vida. Certo momento, conversando sobre isso, Si Fu me disse: “Você tem passaporte?”. Diante da minha negativa sobre isso, Si Fu sorriu e falou: “Uma viagem começa pelo passaporte. Providencie o seu.” De fato, que queremos alguma coisa, nós precisamos dar o primeiro passo.

Durante a comemoração do Ano Novo Chinês neste ano, Si Fu relatou sobre algumas viagens internacionais que fez pela família Kung Fu – 10/02/2019

Acredito que minha primeira viagem internacional será pela família e espero ansiosamente por esse momento. Si Fu e Si Mo, Marcia Moura, estão em processo de mudança para os Estados Unidos ainda neste ano. No almoço de celebração do Ano Novo Chinês neste ano (Ano do Porco), Si Fu externou seu desejo de receber seus discípulos e  demais membros do Clã em sua residência estadunidense. Minha querida irmã, Carmen Maris, já se prontificou a ir em setembro. Nas despedidas do almoço, Si Mo me abraça e me diz baixinho: “Te espero em setembro lá, viu?”. É, diante desse pedido tão especial, terei que providenciar logo meu passaporte (risos).

Visita recente ao núcleo Ipanema, em 22/02/2019. Ao fundo, Si Fu. E da esquerda para direita: Cláudio Teixeira, Thiago Pereira e Alexander.

Desejo aos três desbravadores da Europa uma excelente viagem e muitas histórias para nos contar! See you later!

O coração de um cavaleiro

“Não importa o que você seja, quem você seja, ou que deseja na vida, a ousadia em ser diferente reflete na sua personalidade, no seu caráter, naquilo que você é. E é assim que as pessoas lembrarão de você um dia.”

A frase acima é atribuída a Ayrton Senna, tricampeão de Fórmula 1. E tem muito a ver com a postagem de hoje, principalmente com meu querido irmão Kung Fu, mestre Thiago Pereira.

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Meu Si Hing, mestre Thiago Pereira, líder da família Moy Fat Lei

Há muito tempo venho maturando a ideia de escrever algumas linhas em homenagem ao meu Si Hing. Sei o tamanho da responsabilidade, pois ele tem uma história belíssima e sólida no Ving Tsun, construída ao longo de dezenove anos, completados neste ano. Mas, com açúcar e com afeto, quero falar do quão é significativo conviver com ele.

Geralmente, quando escrevo, penso em palavras de referência. Em se tratando do meu Si Hing, logo me veio a mente a palavra “cavaleiro”, aquele tem tem coragem, bravura. E me lembra também um filme de que gosto muito: Coração de Cavaleiro, onde o personagem principal, William (interpretado por Heath Leager), segue uma jornada em busca de um novo destino. Muitas adversidades aconteceram ao nosso bravo cavaleiro, mas não o fazem desistir.

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Filme “Coração de Cavaleiro”, 2001. Foto de divulgação

Eu conheci o Si Hing Pereira antes do Ving Tsun, através da sua amizade com meu amado Fernando Xavier (a propósito, a amizade dos dois me comove profundamente). E quando ainda nem sonhava em praticar esta arte marcial, a minha curiosidade era aguçada pelas conversas extensas que tinha com Fernando sobre o Si Fu, mestre Julio Camacho, e sobre a sua experiência Kung Fu. E era no blog do Pereira que ia buscar mais sobre essa tal arte fundada por uma mulher de que tanto me falavam. Assim como eu, muitos se inspiraram e conheceram mais sobre o Ving Tsun através das memórias e narrativas emocionadas publicadas em seu blog.

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Si Hing Thiago Pereira compartilhando suas vivências no Seminário Especial de Relação Discipular, setembro de 2018. Ao fundo, nosso Si Fu, mestre Julio Camacho.

Quando surgiu a vontade de escrever um blog, imediatamente recorri ao Si Hing Pereira para me dar dicas desse processo. Eu me lembro de que na minha primeira postagem, ele fez algumas considerações que me ajudaram muito e disparou: “seu blog é elegante, parece um Hung Bao“. Depois das considerações do Si Fu, achei aquela frase a coisa mais bonita e significativa que eu poderia ter e vi que estava no caminho adequado.

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Si Hing Leonardo Reis, Cláudio Teixeira, Thiago Pereira e Roberto Viana na sede da família Moy Jo Lei Ou

Ao longo dessa jornada de quase um ano na família Kung Fu, aprendi muitas coisas com ele. A princípio, eu tinha uma certa formalidade (afinal, ele é o Si Hing Pereira!), mas com o tempo começamos a estreitar os laços e o vejo hoje como aquele irmão de sangue que eu gostaria de ter tido.

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Si Hing Thiago Pereira, Alice Teixeira, Fernando Xavier, eu e Clayton Meireles no jantar comemorativo da titulação para Classe Sênior dos mestres Ricardo Queiroz e Úrsula Lima – outubro de 2018

O que eu mais admiro no Thiago é o seu amor ao Ving Tsun e, especialmente, ao nosso Si Fu. É um homem que vive dos sonhos e isso não o torna, de maneira alguma, um cara frágil ou etéreo; pelo contrário, seus sonhos são força motriz para continuar neste caminho. Fernando Pessoa já dizia que “somos do tamanho dos nossos sonhos”. E Si Hing Pereira: você é grande.

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Si Fu em visita a nova sede da família Moy Fat Lei, no Méier – setembro de 2018

Por ocasião de seu aniversário e por tudo que representa para nossa família e para mim, dedico estas palavras a você, Thiago. Que a vida lhe seja agradável e doce. Que seja próspera sua caminhada e que zelem por você com o mesmo carinho e respeito que dedica a todos da família Kung Fu. Sigamos!

 

 

Um dia lindo de sol

Era um dia lindo de sol. Era domingo. E eu estava com minha família Kung Fu prestando solidariedade ao nosso irmão Iuri pelo falecimento de seu avô. O dia já estava carregado de simbolismos e referências ao passado e ao futuro. E era um dia lindo de sol. Nossas memórias guardam um pouco de nossa trajetória e das pessoas que encontramos ao longo da nossa história. Isso afeta também aos que virão em seguida, às futuras gerações.

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Sepultamento de Wilson Alvarenga, avô do meu querido irmão Kung Fu Iuri. Da esquerda para direita meus Si Hing: Bruno Brandão, André Almeida, Iuri Alvarenga, Clayton Meireles e Felipe Ferreira

Sempre gostei de histórias e de História, quase seguindo a carreira numa época reminiscente. A faculdade não foi concluída, mas a menina que amava conhecer o que se passou ainda tem abrigo no meu espírito. Era um dia lindo de sol, mas ao cair da tarde, o fogo consumiu parte das memórias materiais da humanidade no Museu Nacional do Rio de Janeiro. O mesmo fogo, cultuado em diversas culturas em tempos imemoriais. Certa vez, numa cerimônia da família Moy Jo Lei Ou, Si Fu havia comentado sobre o significado do incenso nas celebrações e reverências aos ancestrais. Ele diz que o incenso é o símbolo da transformação do material para o imaterial, mostrando o quanto somos efêmeros e ao mesmo tempo permanecemos, através da memória.

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Meu Si Fu, Julio Camacho, prestando reverência aos ancestrais, na 70ª Cerimônia da Família Moy Jo Lei Ou.

A notícia do incêndio me abalou profundamente, pois compreendo que nós somos a construção de outros e somente através da história e da memória que tomamos essa dimensão. Era um dia lindo de sol, o mesmo que testemunhou a história humana. O mesmo que há de brilhar mais uma vez, na reconstrução do futuro. Sigamos.

Ao meu mestre, com carinho

Hoje, as palavras são dirigidas ao meu Si Fu. Falar do mestre Julio Camacho é, ao mesmo tempo, simples e complicado, porque estamos diante de um ponto fora da curva, alguém que não se acomoda diante das adversidades que as circunstâncias lhe impõe. Seria fácil e cômodo permanecer e desfrutar das suas conquistas, mas para o Si Fu, continuar caminhando não é uma questão de escolha, é parte da sua essência empreendedora. Uma das coisas que mais admiro nele é a sua observação. Quando você pensa que ele não está reparando, ele está. Sempre está. E isso é uma das características mais importantes de um líder de família.

Eu me lembro da primeira conversa em particular com o Si Fu, após entrar para a família. Antes disso acontecer, eu ficava meio reticente de procurá-lo, talvez por excesso de timidez ou falta de jeito (ou os dois). Foi então que, com uma ajudinha do Si Hing André Almeida, essa conversa aconteceu.

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Café da manhã com Si Fu, em novembro de 2017, quando recebi o convite para ingressar à família.

Foi nessa conversa que, dentre tantos assuntos, ele me perguntou se eu conhecia a “lógica do camelo”. Eu disse que não, mas sabia que o camelo era um animal resistente, porque vivia no deserto. Foi então que ele me explicou. O camelo é um animal muito forte e resistente, mais até que o cavalo, porém não era usado para as guerras, por um motivo: o camelo não sabe parar, ele vai até o esgotamento das suas forças e, quando menos se espera o camelo para e cai morto. Isso não acontece com o cavalo que dá sinais de cansaço, para, depois continua. A lógica do camelo, então, consiste em trabalhar até ficar extenuado, para além dos seus limites físicos e, de repente, sucumbir ‘morto’. Aquilo era pra mim, Si Fu estava falando sobre mim. Eu sou o camelo! E foi nesse ponto que Si Fu me disse que dentro do Ving Tsun iríamos trabalhar isso, para aproveitar o máximo desse meu potencial e que parar e pedir ajuda é importante também.

O que me impressionou, depois dessa conversa, é que ele realmente estava observando, atento a mim, mesmo com pouco contato. Embora tenhamos um curto tempo de calendário na convivência, parece que somos conhecidos de uma longa trajetória. Cada membro da família Moy Jo Lei Ou tem a sensação de ser único, especial, sob o olhar atento do nosso mestre. E isso é fascinante!

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Primeira foto Si To, março de 2018.

Ainda tenho muito a aprender e vivenciar com o Si Fu; estamos num processo de construção dessa relação Si Fu/Todai, para uma vida Kung Fu. Mas, se tem alguma palavra que seja mais adequada para o que foi vivido até o momento, essa seria Gratidão. Aqui, no sentido mais amplo, remontando a sua origem – do latim gratus, traduzido literalmente como “agradável”. Estar com o Si Fu é mais que ser agraciado, é partilhar de momentos únicos e agradáveis. Sigamos juntos!

Tempo e história

Há momentos em que assistimos o curso da história e só nos damos conta da relevância daquele instante tempos depois. Em 29 de agosto de 2015, estava pela primeira vez assistindo uma cerimônia oficial da família Moy Jo Lei Ou. Naquela ocasião, conheci meu Si Fu, mestre Julio Camacho e meu Si Gung, Grão-mestre Leo Imamura. A cerimônia em questão era a titulação de duas pessoas muito queridas na família Kung Fu: mestres Thiago Pereira (Moy Fat Lei) e Leonardo Reis (Moy Lei Wong).

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Cerimônia de Titulação do mestre Thiago Pereira (ao centro) em 29/8/2015. À esquerda, meu Si Fu, Julio Camacho, e à direita, meu Si Gung, Leo Imamura.

Com a inauguração da família Moy Fat Lei,  em 9 de abril de 2016, houve uma reestruturação para cima, inaugurando-se o Clã Moy Jo Lei Ou e o Grande Clã Moy Yat Sang. Um marco histórico dentro da genealogia. Ao longo desses dois anos, muita coisa aconteceu. A família Moy Fat Lei segue em crescimento, o nosso Clã em processo de expansão e inovações, sempre no intuito de difundir a transmissão do Ving Tsun, unindo tradição e modernidade.

No último sábado (14/04), em celebração a este marco histórico, a família Moy Fat Lei realizou sua X Cerimônia Oficial no núcleo Barra, sede do Clã Moy Jo Lei Ou. Neste dia, foram admitidos novos membros à família MFL e acesso ao nível intermediário por um dos praticantes. Foi uma celebração marcante e emocionante para todos que ali compareceram.

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Foto Oficial da X Cerimônia da família Moy Fat Lei, realizada em 14/4/2018.

Já dizia o poeta que o tempo é um dos deuses mais lindos. De certa maneira, a beleza do tempo está neste processo transformador; como disse anteriormente, naquela noite de agosto de 2015 não tinha a dimensão do que é ser uma família Kung Fu. Mas, me lembro que naquele momento percebi algo mais que especial. Hoje, mais que presenciar os fatos, estou inserida neste contexto familiar. Que o tempo vindouro seja mais que belo e frutífero para nosso Clã. Sigamos juntos!