Um dia lindo de sol

Era um dia lindo de sol. Era domingo. E eu estava com minha família Kung Fu prestando solidariedade ao nosso irmão Iuri pelo falecimento de seu avô. O dia já estava carregado de simbolismos e referências ao passado e ao futuro. E era um dia lindo de sol. Nossas memórias guardam um pouco de nossa trajetória e das pessoas que encontramos ao longo da nossa história. Isso afeta também aos que virão em seguida, às futuras gerações.

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Sepultamento de Wilson Alvarenga, avô do meu querido irmão Kung Fu Iuri. Da esquerda para direita meus Si Hing: Bruno Brandão, André Almeida, Iuri Alvarenga, Clayton Meireles e Felipe Ferreira

Sempre gostei de histórias e de História, quase seguindo a carreira numa época reminiscente. A faculdade não foi concluída, mas a menina que amava conhecer o que se passou ainda tem abrigo no meu espírito. Era um dia lindo de sol, mas ao cair da tarde, o fogo consumiu parte das memórias materiais da humanidade no Museu Nacional do Rio de Janeiro. O mesmo fogo, cultuado em diversas culturas em tempos imemoriais. Certa vez, numa cerimônia da família Moy Jo Lei Ou, Si Fu havia comentado sobre o significado do incenso nas celebrações e reverências aos ancestrais. Ele diz que o incenso é o símbolo da transformação do material para o imaterial, mostrando o quanto somos efêmeros e ao mesmo tempo permanecemos, através da memória.

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Meu Si Fu, Julio Camacho, prestando reverência aos ancestrais, na 70ª Cerimônia da Família Moy Jo Lei Ou.

A notícia do incêndio me abalou profundamente, pois compreendo que nós somos a construção de outros e somente através da história e da memória que tomamos essa dimensão. Era um dia lindo de sol, o mesmo que testemunhou a história humana. O mesmo que há de brilhar mais uma vez, na reconstrução do futuro. Sigamos.

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Ao meu mestre, com carinho

Hoje, as palavras são dirigidas ao meu Si Fu. Falar do mestre Julio Camacho é, ao mesmo tempo, simples e complicado, porque estamos diante de um ponto fora da curva, alguém que não se acomoda diante das adversidades que as circunstâncias lhe impõe. Seria fácil e cômodo permanecer e desfrutar das suas conquistas, mas para o Si Fu, continuar caminhando não é uma questão de escolha, é parte da sua essência empreendedora. Uma das coisas que mais admiro nele é a sua observação. Quando você pensa que ele não está reparando, ele está. Sempre está. E isso é uma das características mais importantes de um líder de família.

Eu me lembro da primeira conversa em particular com o Si Fu, após entrar para a família. Antes disso acontecer, eu ficava meio reticente de procurá-lo, talvez por excesso de timidez ou falta de jeito (ou os dois). Foi então que, com uma ajudinha do Si Hing André Almeida, essa conversa aconteceu.

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Café da manhã com Si Fu, em novembro de 2017, quando recebi o convite para ingressar à família.

Foi nessa conversa que, dentre tantos assuntos, ele me perguntou se eu conhecia a “lógica do camelo”. Eu disse que não, mas sabia que o camelo era um animal resistente, porque vivia no deserto. Foi então que ele me explicou. O camelo é um animal muito forte e resistente, mais até que o cavalo, porém não era usado para as guerras, por um motivo: o camelo não sabe parar, ele vai até o esgotamento das suas forças e, quando menos se espera o camelo para e cai morto. Isso não acontece com o cavalo que dá sinais de cansaço, para, depois continua. A lógica do camelo, então, consiste em trabalhar até ficar extenuado, para além dos seus limites físicos e, de repente, sucumbir ‘morto’. Aquilo era pra mim, Si Fu estava falando sobre mim. Eu sou o camelo! E foi nesse ponto que Si Fu me disse que dentro do Ving Tsun iríamos trabalhar isso, para aproveitar o máximo desse meu potencial e que parar e pedir ajuda é importante também.

O que me impressionou, depois dessa conversa, é que ele realmente estava observando, atento a mim, mesmo com pouco contato. Embora tenhamos um curto tempo de calendário na convivência, parece que somos conhecidos de uma longa trajetória. Cada membro da família Moy Jo Lei Ou tem a sensação de ser único, especial, sob o olhar atento do nosso mestre. E isso é fascinante!

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Primeira foto Si To, março de 2018.

Ainda tenho muito a aprender e vivenciar com o Si Fu; estamos num processo de construção dessa relação Si Fu/Todai, para uma vida Kung Fu. Mas, se tem alguma palavra que seja mais adequada para o que foi vivido até o momento, essa seria Gratidão. Aqui, no sentido mais amplo, remontando a sua origem – do latim gratus, traduzido literalmente como “agradável”. Estar com o Si Fu é mais que ser agraciado, é partilhar de momentos únicos e agradáveis. Sigamos juntos!

Tempo e história

Há momentos em que assistimos o curso da história e só nos damos conta da relevância daquele instante tempos depois. Em 29 de agosto de 2015, estava pela primeira vez assistindo uma cerimônia oficial da família Moy Jo Lei Ou. Naquela ocasião, conheci meu Si Fu, mestre Julio Camacho e meu Si Gung, Grão-mestre Leo Imamura. A cerimônia em questão era a titulação de duas pessoas muito queridas na família Kung Fu: mestres Thiago Pereira (Moy Fat Lei) e Leonardo Reis (Moy Lei Wong).

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Cerimônia de Titulação do mestre Thiago Pereira (ao centro) em 29/8/2015. À esquerda, meu Si Fu, Julio Camacho, e à direita, meu Si Gung, Leo Imamura.

Com a inauguração da família Moy Fat Lei,  em 9 de abril de 2016, houve uma reestruturação para cima, inaugurando-se o Clã Moy Jo Lei Ou e o Grande Clã Moy Yat Sang. Um marco histórico dentro da genealogia. Ao longo desses dois anos, muita coisa aconteceu. A família Moy Fat Lei segue em crescimento, o nosso Clã em processo de expansão e inovações, sempre no intuito de difundir a transmissão do Ving Tsun, unindo tradição e modernidade.

No último sábado (14/04), em celebração a este marco histórico, a família Moy Fat Lei realizou sua X Cerimônia Oficial no núcleo Barra, sede do Clã Moy Jo Lei Ou. Neste dia, foram admitidos novos membros à família MFL e acesso ao nível intermediário por um dos praticantes. Foi uma celebração marcante e emocionante para todos que ali compareceram.

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Foto Oficial da X Cerimônia da família Moy Fat Lei, realizada em 14/4/2018.

Já dizia o poeta que o tempo é um dos deuses mais lindos. De certa maneira, a beleza do tempo está neste processo transformador; como disse anteriormente, naquela noite de agosto de 2015 não tinha a dimensão do que é ser uma família Kung Fu. Mas, me lembro que naquele momento percebi algo mais que especial. Hoje, mais que presenciar os fatos, estou inserida neste contexto familiar. Que o tempo vindouro seja mais que belo e frutífero para nosso Clã. Sigamos juntos!

 

 

É Preciso Coragem!

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Si Fu e Si Hing Thiago Pereira na preparação do Sam Toi – 17/03/2018

O dia 17 de março de 2018 foi um marco histórico para a nossa família. Além da inauguração do núcleo Barra, comemoramos os 15 anos da família Moy Jo Lei Ou, além de celebrarmos a admissão de novos membros à família, acessos de nível e discipulado. No entanto, o que mais me marcou neste dia foi o uso recorrente da palavra coragem. Inicialmente, mestre Julio Camacho, nosso Si Fu, lembrou a todos como foi o momento de abrir o primeiro núcleo e como esse desejo havia sido recebido pelo Si Gung, Leo Imamura, que a princípio, não achava que daria certo, embora autorizasse a empreitada. Foi com coragem e aposta no futuro que nossa família se iniciou; a mesma que marcou toda a trajetória do mestre Julio Camacho. A coragem que levará o Ving Tsun a lugares muito além do Atlântico, com a inauguração do núcleo em Angola ainda neste ano. A coragem que levará nosso Si Fu a inaugurar novas unidades nos Estados Unidos, num futuro muito próximo.

Cerimônia de Discipulado na Família Moy Jo Lei Ou – 17/03/2018

A noite de anteontem foi marcante também pelos participantes da cerimônia. Em cada fala, a perseverança e a coragem de fazer parte dessa família, encarando os obstáculos e percalços diários para tornar possível a prática do Ving Tsun. Ouvindo aqueles relatos, soou-me como uma espécie de convocação geral, inclusive para mim, de superar e agir com coragem. Durante a construção da vida kung fu, há muitos desafios a serem superados, como a falta de tempo, o cansaço, os conflitos internos. Mas, a convivência com o Si Fu e os irmãos kung fu colabora para renovar as forças e seguir.

A palavra coragem vem do termo francês courage que, por sua vez, possui suas raízes no latim; etimologicamente, o termo remete a ideia de “agir com o coração” e compreendendo melhor suas origens, nada mais adequado para a família kung fu do que esta palavra. Que possamos fazer, através do Ving Tsun, um caminho de desenvolvimento pessoal e humano, capaz de lidar da melhor forma com as adversidades, como um ato de coragem. Sigamos juntos!